Ter,
27 de Abril de 2010
As importações
do país cresceram significativamente no primeiro trimestre
na comparação com o mesmo período do ano
anterior. As importações de mercadorias "made
in China", porém, cresceram muito mais, favorecidas
pela maior capacidade de consumo das famílias com menor
renda. Os desembarques de produtos chineses tiveram no período
elevação de 45,5% em valor, bem acima da média,
de 36%. As importações dos Estados Unidos aumentaram
apenas 6,23%.
A compra
de produtos chineses foi puxada principalmente por máquinas
e insumos para a indústria eletrônica, como partes
de aparelhos de transmissão e circuitos integrados. O
aquecimento do setor automotivo também impulsionou as
importações de outros países, como Argentina,
que vendeu ao Brasil 41,93% a mais no trimestre. Também
puxada pelos automóveis, os desembarques com origem na
Coreia do Sul cresceram 80,2%.
A pauta
de importação do Brasil de produtos chineses fez
toda a diferença, diz André Sacconato, da Tendências
Consultoria. "É um reflexo da mudança da
estrutura brasileira de classes." Os bens importados da
China, acredita, atendem à alta demanda das famílias
de renda mais baixa que tiveram aumento no poder de compra.
Isso, segundo ele, acontece tanto para os bens de consumo quanto
para o fornecimento de insumos industriais.
"Os
principais itens exportados pela China ao Brasil são
componentes para a indústria eletroeletrônica e
de informática, altamente demandada pelo mercado interno",
diz Lia Valls, professora da Fundação Getulio
Vargas (FGV).
Existe,
na verdade, uma tendência de aumento da corrente de comércio
entre Brasil e China, aponta Fernanda Feil, da Rosenberg &
Associados. Por isso, ao mesmo tempo em que o Brasil eleva as
exportações de commodities para o parceiro asiático,
a China também vende mais ao Brasil em produtos manufaturados
"A China tem aproveitado o mercado brasileiro. Ela já
tem preço em função de competitividade
e atualmente suas exportações estão favorecidas
com a desvalorização da moeda chinesa."
A alta
dos desembarques com origem da China não deve se restringir
ao primeiro trimestre. Fernanda acredita que as importações
do país asiático devem continuar aumentando em
nível acima da média em 2010. A estimativa da
Rosenberg é que as importações totais do
país cresçam 32,8% no ano, na comparação
com 2009. As exportações devem ter elevação
de 17,4%.
Mesmo com
o avanço das importações da China, Sacconato
acredita que o Brasil passe a ter superávit com o país
asiático. A compra de produtos chineses deve continuar
forte, acredita, em função da perspectiva de crescimento
da economia brasileira, estimada pela Tendências entre
5,5% e 6% para 2010. "A China, porém, deve crescer
mais: cerca de 9,5%, o que vai alavancar as exportações
das commodities brasileiras."
No primeiro
trimestre o Brasil ficou com déficit de US$ 607,6 milhões
na balança comercial com a China, mas Sacconato acredita
que isso se reverterá nos próximos meses, mais
provavelmente a partir de maio. "Haverá escoamento
da safra agrícola, enquanto que as exportações
de minério de ferro e de celulose contarão com
alta de preços."
Fernanda
aponta a tendência de elevação de preços
das commodities agrícolas e metálicas. A Rosenberg
estima para este ano crescimento de 10% no preço médio
de commodities agrícolas em relação a 2009.
Para as commodities metálicas, a expectativa de aumento
é de 15%.
Na balança
com os Estados Unidos, porém, acredita Sacconato, da
Tendências, deve pesar bastante a expectativa de crescimento
relativamente baixo do mercado americano, estimado em 2,4%.
No primeiro trimestre o Brasil ficou com déficit de US$
1,43 bilhão na balança com os americanos. O quadro,
acredita, Sacconato, não deve se transformar muito até
o fim deste ano, já que as exportações
brasileiras para os Estados Unidos dependem de uma reação
maior daquele mercado. "É bem possível que
em 2010 tenhamos um pequeno déficit ou talvez um superávit
muito baixo com os Estados Unidos."
Fonte:
Valor Econômico